segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O "Economista X" agora tem novo endereço

Ladies & Gents, o blog está de mudança. A partir de hoje estaremos no endereço abaixo


Por que um novo site?
Com praticamente 1 ano de vida, o blog já teve mais de meio milhão de visitas, e no meio do caminho amealhou fama (somos o blog nº 1 do mercado segundo o Instituto Veritá...; exceto o Mantega e a Dilma, estudantes, professores e economistas "de mercado", de todas as crenças, leem nosso blog), sucesso e dinheiro. Não foi uma fortuna mas foi o suficiente para encomendarmos um site próprio. Algo mais profissional, que facilitasse a navegação do leitor dentro do nosso conteúdo e que oferecesse uma plataforma melhor para os próximos desenvolvimentos.

O que tem de novo?
Fora o layout, no novo site é possível encontrar posts por autor, assunto e "série" -- uma nova forma de organizar nossos posts. Há novas seções com informações utéis (links para dados e material de interesse da comunidade), vídeos e livros recomendados. Os comentários agora podem ser avaliados (thumbs up/thumbs down) e estão integrados ao Facebook. Há também informações mais detalhadas sobre quem são os colaboradores e o propósito do blog. Enfim, clique no link e dê uma volta pelo site.

O site ainda é um "work in progres". Sugestões e críticas ao novo site são bem-vindas.

A special thanks
Para Ana Pousada e Sônia Peyroton (Artes Café). Sem elas não teríamos entrado no ar com o novo site. Estamos gratos também ao Leandro e a Mayara da Apiki pela mãozinha com o wordpress. 

domingo, 2 de novembro de 2014

ACP and JBS idea

It features in Estadão today.

These guys said: hey, the real Exchange rate is given by the P_tradables/P_ntradables ratio, and this may some times differ from the more usual (P_ext*E)/P_domestic measure. Whilst the latter has depreciated recently, the former has not. That may explain the resilience of Brazil´s big C.Account déficit.

I concede it is a good point...

But as always the aforementioned fellas seem to lack basic knowledge of microeconomics when they begin to explain their results. JBS for instance says that reduction in durable goods taxes Brazil experienced explains part of the poor trade balance results. He seems to be reasoning like this: lower prices for these tradable goods is equivalent to an appreciation of the real Exchange rate: it heightens demand and thus worsens the trade balance. Lamentably, FG applauds.

This is woefully wrong, though. He seems to be reasoning like this: lower prices for these tradable goods is equivalent to an appreciation of the real Exchange rate: it heightens demand and thus worsens the trade balance. But anyone who has studied economics 101 knows that tax cuts never lead to lower after-tax prices for producers. Actually that´s why production increases after a tax-cut by the way. The after-tax tradable price has actually increased, my dear J. I have the impression you thought a tax cut only boosted demand. To be candid, I am pretty sure you thought like that.

sábado, 1 de novembro de 2014

Not Enough Alckmin

Alckmin, we dont admire you, we dont support you.

Actually, we are afraid about you trying to run for president in 2018. Please dont.

About water shortage: boy, increase prices now -- big time. Offering bônuses to those who consume less will not suffice at this juncture.

Why people oppose price increases is hard to grasp, since they tend to tolerate rationing, which is tantamount to price = infinity.

Concern for the poor? Redistribute all extra revenues to them, thr a helicopter.

Alckmin, we are watching you. Dont you dare!

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

The prejudice wave

Are you happy, Santana? I am talking to you, you schemming cunning irresponsible dumbass!

Of course, PT has not invented prejudice against poor people from the north part of Brazil. But in this campaign, PT has irresponsibly promoted the "Us vs. Them"idea, has insuflated class warfare by posing as the ultimate poor´s people advocate against the so-called elites. There is a cost to pay now, Dilma, for running a sordid campaign.

PT has nurtured dissentment and of course this strenghtens the political clout of the worst bigoted right-wing scam. We, who oppose Dilma but detest this unscrupulous right, are sad with all this.

It was your fault Dilma-Santana ! I blame you !

Macro apertada e micro cagada dá em quê?


In a recession, boys. Mark my words.

Now, of course there is legitimate uncertainty as to whether these fellas are really going to tighten...

But let us assume they will, please.

After so much fuss yesterday, today I read with amazement that the Treasury is pouring more 20 bi into BNDES. This of course undermines any Central Bank´s effort to curb inflation. But, more importantly, it suggests Dilma has not understood where low growth is coming from, namely, the micro side of the New Fucking Matrix (henceforth, NFM).

Important question: by the time they realize growth rates are not responding to their "orthodox initiaves", what signal will they extract? Probably that the Central Bank should not have tightened !

Important question number 2: what will the electorate infer? Hopefully, that these guys dont know what they are doing.

Important question number 3: will this mean the end of the NFM? Or can it make a come back in 2030????

Jesus, I am out of here.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Malditas commodities

Quando os preços das commodities estavam subindo, argumentava-se que isso era um problema pois comprometia o desempenho da indústria. Em geral, o mecanismo passava pela apreciação cambial, barateamento de produtos manufaturados estrangeiros e consequente perda de competitividade da indústria nacional.

Agora a culpa continua sendo das commodities, mas porque seus preços estão caindo. Em entrevista recente, a presidenta Dilma afirmou:
O Brasil nesse segundo semestre teve recuperação, mas concordo que há um quadro internacional complicado. A indústria de São Paulo sofre a consequência de uma grave depressão no preço das commodities.
Pelo jeito coisas como infraestrutura deficiente, baixa qualificação da força de trabalho, ambiente de negócios são secundárias.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A ressaca das propostas econômicas


É consenso que esta eleição marcou o ápice da polarização na política recente do Brasil. Os ânimos subiram em ambos os lados, do núcleo da campanha às discussões no Facebook e militantes na rua. No meio desta confusão, muitos temas foram mal abordados e rotulados de forma equivocada. Principalmente os temas relacionados à política econômica. Já uma campanha é um momento marcante para sociedade, boas ideias podem ficar estigmatizadas. Então cabe a nós economistas resgatá-las antes que o estrago seja permanente e nenhum político tenha mais coragem de encampá-las. (Isto também quer dizer que este texto é endereçado a quem não é economista, ou é economista em formação)

Vou começar falando do controle da inflação. Parece óbvia a necessidade de manter a inflação baixa e sob controle, mas a eleição mostrou que esta ideia não está cristalizada na cabeça do eleitor. No discurso eleitoral o governo passou uma ideia de que a inflação está baixa e que combatê-la seria uma estratégia contrária ao desenvolvimento do país. Nada mais equivocado. Uma inflação baixa é uma das condições essenciais para um desenvolvimento equitativo. A inflação é um mecanismo concentrador de renda, pois corrói o poder de compra dos assalariados e de todos que possuem dinheiro à vista. Mais ainda, a perspectiva de alta de inflação traz risco para quem quer comprar ativos denominados em moeda (como títulos da dívida). Isso afeta, por exemplo, a disponibilidade de um banco oferecer um empréstimo.

A campanha governista acusou a oposição de pretender combater a inflação às custas de aumento do desemprego. Por outro lado, a proposta governista seria capaz controlar a inflação sem prejuízo dos empregos (ver link). No entanto, o governo não é capaz de fazer isso. Existem duas ferramentas básicas de controle da inflação, a política fiscal (gastos do governo e arrecadação de impostos) e a política monetária (taxa de juros, compulsório bancário, etc.). Qualquer uma das duas afetam a inflação apenas na medida em que desaquecem o mercado de trabalho. Logo, controlar a inflação sem gerar desemprego é o mesmo que não controlar a inflação. Em teoria uma desinflação poderia ocorrer sem custo de desemprego, com uma autoridade monetária que desfrute de credibilidade (condição 1) num mercado sem rigidez de preços (condição 2). No momento, essas duas condições não são válidas, logo, não rola.

O lado "bom" é que o desemprego sobe apenas quando a inflação está caindo. Quando ela se estabiliza num patamar menor, o emprego volta a um nível “normal” (Boas referências do NBER são esse paper do Ball e esse do Gordon). Ou seja, manter uma inflação baixa não significa ter um desemprego sempre alto mas apenas enquanto a inflação estiver em queda (veja o post do Mauro sobre a taxa de sacrifício). Da mesma forma, ter uma inflação estável e alta não garante emprego de ninguém. Por isso que no longo prazo é sempre melhor ter menos inflação (há um limite pra isso também. Deflação costuma ser ruim, mas esse é um problema remoto). 

Mas e quanto aos outros instrumentos de política econômica? Ao longo dos últimos 4 anos o governo segurou tarifas de setores regulados e reduziu impostos em vários setores, sempre com um olho no bônus gerado pela menor inflação. Mas estas políticas têm efeitos pontuais sobre a inflação e não são capazes de alterar a tendência. Em pouco tempo eles somem. Além do mais, para utilizá-las é preciso ter espaço no orçamento. Não há mais! Há meses o governo não cumpre o superávit primário e nossa dívida está crescendo. Se seguirmos nesse ritmo ela voltará rapidamente a ser um problema (tomara que não cheguemos a isso!). Aí a coisa fica muito pior.

Enfim, não há milagres no controle da inflação. Não deveríamos nos satisfazer com uma taxa estável em 6 ou 6,5%, muito menos tolerar uma taxa ainda maior. Esse ritmo traz custos altos para a sociedade. Como aprendem os alunos de economia no primeiro semestre, há um trade-off e o governo vai ter que escolher. Não dá pra reduzir a inflação sem aumentar o desemprego. É aguardar pra ver.

Cursos pagos na USP: Bom ou ruim?


Foi com certo ar de reprovação que alguns jornais divulgaram esses dias a existências de vários cursos pagos na USP. São mais de 20 mil alunos inscritos nesses cursos -- uns falam em 22 mil, outros em 28 mil. Esperava um tom de lamento, dado que esses números poderiam e, a meu ver, deveriam ser muito maiores.

Ah os sindicatos...
Nem todo mundo tá feliz com isso. Veja por exemplo o que diz o presidente do sindicato dos professores da USP:
"A educação é um direito social, que não se paga", defende Ciro Correia, presidente da entidade. !A universidade é pública. Não pode haver esse conflito de interesses."
Veja a lógica dessas afirmações: é preferível que os cursos fechem, os vinte e tantos mil alunos migrem para outros cursos (possivelmente de qualidade inferior e todos na mão dos capitalistas malvados do setor privado) e a universidade e os professores (que o sindicato diz defender!) percam os trocados que estão todos ganhando com isso -- trocados que a universidade, em particular, usa para fazer manutenção na infraestrutura das salas de aula e dos prédios.

Dá pra levar a sério esses caras? Quer dizer então que devemos taxar mais ainda as pessoas para financiar curso de MBA e especialização, "direitos sociais" segundo o seu Ciro? 

Enfim. são ideias como essa que impedem as universidades brasileiras de realizarem o seu potencial (tem muito estudante e professor bom aqui).

Triconomics: Programa de Rádio sobre Economia


Carlos E. S. Gonçalves (aka Dudu), um dos founding fathers do blog e, junto com Mauro Rodrigues, autor de "Sob a Lupa do Economista", estreia na CBN um programa de rádio sobre economia. Com Alexandre Schwartsman e Luis Gustavo Medina, falará de conjuntura e de "economia do cotidiano".
O link para o aúdio do primeiro programa dos três pode ser encontrado aqui. Detalhes sobre o show abaixo.

Sobre o show
"Afinal, o que é Triconomics? Não se trata de nenhuma charada: três economistas vão se reunir duas vezes por semana para analisar – em profundidade, mas com bom humor e uma pitada de irreverência – o cenário brasileiro. O trio é formado por Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, e Carlos Eduardo Gonçalves, professor-titular da FEA-USP, com a mediação de Luiz Gustavo Medina (o Teco de Hora e Fim de Expediente). No clima de descontração do boletim, no Triconomics, Schwartsman e Gonçalves serão apenas Alex e Dudu.

Toda terça e quinta, ao meio-dia, a CBN vai disponibilizar um podcast de dez minutos do quadro pelo site. A primeira parte chama-se “Call de abertura”, expressão utilizada pelos bancos em suas reuniões, e vai tratar dos principais fatos econômicos; em seguida, vem o “Bestiário”, com as declarações mais polêmicas, ou mesmo inadequadas, que ganharam espaço na mídia; fechando o podcast, “Economia, modo de usar” vai ficar sob a responsabilidade de Carlos Eduardo Gonçalves, mostrando o que está por trás do preço da pipoca ou do custo de uma joia – o economês traduzido para o mundo real. Apesar de ficar disponível primeiro na internet, o Triconomics também tem espaço na programação radiofônica. O “Call de abertura” é um quadro fixo no CBN Brasil, ancorado por Carlos Alberto Sardenberg, e vai ao ar, às terças e quintas, logo após a edição das 13h do Repórter CBN." (Texto da CBN)

Sumário do 1º Programa
Nenhuma ação do governo agora vai impactar no crescimento do PIB de 2014: Efeitos só devem ser sentidos no próximo ano. Segundo os economistas, as políticas equivocadas foram as responsáveis por esse cenário, que não está relacionado com a crise internacional (Fonte: CBN).

terça-feira, 28 de outubro de 2014

5 observações sobre os resultados das eleições


Alívio ou frustração. Esses parecem ser os sentimentos que predominam de forma excludente entre os eleitores. Findado o "show da democracia", Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por cerca de três milhões e meio de votos. Foi muito pouco, como já era esperado nessa que se desenhou como uma das eleições presidenciais mais competitivas e emocionantes da história das eleições diretas no Brasil. 

Primeiras reações
Com a divulgação dos resultados, "civis" nas redes sociais e jornalistas especializados em políticas nos grandes canais de televisão começaram a fazer interpretações intringuantes. Um comentarista de um grande canal "culpou" Minas Gerais pelo derrota de Aécio Neves. Não faltou também gente bisonhamente defendendo a divisão do país em dois quase que seguindo a distribuição binária de estados em que venceu cada candidato -- como se as marcas do subdesenvolvimento na história do país fosse responsabilidade exclusiva das escolhas dos eleitores de uma ou outra região.

Aproveito para compilar algumas reflexões sobre os resultados e apontar algumas curiosidades nos resultados que me parecem ter passado desapercebidas. Aí vai:

1. Pesquisas de opinião: "In science we (should) trust"



Muito descrédito recaiu sobre os institutos de pesquisa. Foi um tanto compreensível dado o tamanho do erro nas estimativas do primeiro turno -- as pesquisas de intenção de voto apontavam que Aécio (Dilma) teria 26% (44%) dos votos válidos, tendo tido, de fato, 33,55% (41,59%). O que foi pouco comentado é que essas pesquisas de intenção sempre exibem erros relativamente grandes em relação aos resultados do primeiro turno -- em geral são erros não-amostrais, em grande parte produzidos por "erro" na hora de votar devido ao número maior de candidatos a ser escolhido -- mas tendem a cravar o resultado com impressionante precisão estatística no segundo turno. E não foi diferente nessa eleição: as sondagens de Ibope e Datafolha na última semana falavam em percentuais que acabaram sendo muito próximos do percentual de votos obtido por Dilma e Aécio. Estatisticamente, acertaram na lata!

2. Psicologia do eleitor "swing"




Na semana passada escrevi um post onde fiz considerações sobre a psicologia do eleitor "swing" -- os indecisos, os que abstiveram-se no 1º turno e os que votaram branco e nulo. Falei de três efeitos que poderiam atuar sobre esses eleitores: o "efeito underdog" (preferir o candidato que é esperado perder), o efeito "networked bandwagon" (seguir o voto das pessoas indecisas na sua "rede" social uma vez que elas comecem a se decidir) e o efeito "efeito ilusão pivotal" (a crença de que seu voto individual pode ser relevante para determinar o resultado da eleição).

Uma evidência anedótica do segundo efeito foi a declaração pública de voto de alguns jogadores de futebol (Fred e Ronaldinho) na esteira da divulgação do vídeo de Neymar Jr. declarando voto em Aécio.

Dito isto, o efeito que governaria o resultado previsto seria mesmo o terceiro: a "ilusão pivotal". A ideia era a seguinte: se parte desses eleitores "swing" acreditassem que há um empate técnico, desejariam aparecer para votar no segundo turno. O efeito obviamente recairia sobre eleitores dos dois candidatos. Mas o argumento em favor de um efeito final em favor de Aécio provinha da hipótese de que o custo a ser internalizado nessa decisão de se deslocar para o seu distrito eleitoral operaria como uma barreira maior para os eleitores de Dilma. 

O fato que chegamos na sexta com um virtual empate técnico entre os candidatos, criava as condições ideias para testar a previsão, que tinha portanto duas partes: uma parte "qualitativa" (o sinal do efeito: votos "swing" diminuirão) e outra quantitativa (o tamanho do efeito: a mudança de votos terá suficiente para dar a vitória a Aécio Neves). 

Conquanto a segunda parte da previsão tenha miseravelmente falhado, fui olhar os dados dessa e das últimas três eleições e constantei que eles são consistentes com a primeira parte da previsão: embora seja sempre verdade que, do primeiro para o segundo turno, (a) o percentual de votos brancos/nulos se reduz, e (b) o percentual de abstenções aumente, esses movimentos foram diferentes nessa última eleição na direção prevista: as abstenções aumentaram menos e os votos nulos/brancos diminuíram mais (a excessão é a redução de nulos em 2002).

A tabela abaixo mostra as diferenças entre os percentuais (de abstenções, nulos e brancos) de primeiro e o segundo turno das últimas quatro eleições. Há evidência, portanto, de que teve um efeito na direção prevista mas sem a intensidade suficiente para mais do compensar outros movimentos que acabaram dando mais votos para Dilma.


3. Boatos de que Aécio estava vencendo eram verdadeiros
Soube de fontes quentes que Aécio estava a frente de Dilma nas horas que anteciparam a divulgação. Em certo momento, quando faltavam cerca de trinta minutos para a divulgação do resultado, dizia-se que Aécio estava com 53%. Havia um clima de euforia entre amigos e conhecidos com quem compartilhei as boas-novas. Quando os resultados apareceram às 20h ficou a dúvida: a fonte estava falando a verdade? O gráfico abaixo mostra que sim: no eyeball, vê-se que Aécio chegou a estar mais de 10 pontos percentuais a frente de Dilma com mais da metade das urnas apuradas (!), com Dilma passando-o apenas com a contagem dos votos do decil final das urnas sendo apuradas. Close call!



4. "Mas e se...": Existe um culpado?




Resultado computado, os que torciam pela vitória do senador procuravam um "culpado". Muitos analistas foram ligeiros em vaticinar MG como o culpado (a diferença foi de cerca de 500 mil votos apenas...). Os que votaram nulo e se abstiveram-se de votar (mais de 25% do eleitorado) foram "culpados" também.

Muitos outros disseram que o culpado era a região Nordeste -- nos estados da região, Dilma teve, de fato, expressivos percentuais de votação; excetuando-se Alagoas, Dilma teve diferenças de mais de 30 pontos percentuais em todos os estados da região (foi de mais de 50 pontos percentuais no Ceará, Maranhão e Piauí.). como já aconteceu no primeiro turno, discursos de ódio contra a região abundam. Até os que votaram nulo e se abstiveram-se de votar (mais de 25% do eleitorado) foram "culpados".

A ideia de geolocalizar a "culpa" pela derrota é no mínimo boba, dado que estamos em um sistema onde o que importa é a contagem nacional de votos, tendo os votos de lugares diferentes rigorosamente a mesma influência no resultado final (diferentemente dos EUA onde o vencedor em cada estado "takes ti all"(votos do estado)).

O tratamento pouco cuidadoso dos dados pode ser, em parte, responsável por essas confusões. Falo especificamente desses mapas binários de votação por estado (pintado de vermelho se Dilma ganhou, e azul se Aécio venceu) que muito aparecem nos jornais (ver o exemplo abaixo com dados do segundo turno dessa eleição). 


O que esses gráficos escondem é que Dilma teve votações expressivas em absolutamente todos os estados (ver gráfico abaixo, da web, com cada estado sendo colorido conforme proporção de tovo obtido por cada candidato). Em Santa Catarina por exemplo, onde Aécio venceu com a maior diferença percentual absoluta, Dilma obteve 35% dos votos válidos. No Rio Grande do Sul, Aécio venceu mas Dilma obteve quase 47% dos votos. Em São Paulo por exemplo, Dilma obteve praticamente 8.5 milhões de votos, metade dos quais seriam mais do que suficientes para ter dado a vitória a Aécio. Ou seja: é sempre possível definir uma aglomeração espacial grande o suficiente para fazer o exercício contrafactual de que, tivessem Dilma tido, sei lá, metade dos votados que obteve, o resultado da corrida presidencial teria sido outro. O exercício é obviamente inútil: Dilma venceu com votos de eleitores de todos os lugares. Period.



5. Quem tem medo da polarização?
A disputa acirrada parece ter deixado muita gente impressionada. Faz sentido. Afinal, nunca experimentamos, desde a abertura, uma eleição tão concorrida como essa. O que não faz absolutamente nenhum sentido é tomar isso como sinal de que há uma divisão no país que justifique falar em segregação. 

Obviamente que essas são reações emocionais de quem está tendo dificuldade de assimilar a verdade: Dilma venceu e o fez dentro das regras do jogo democrático, de modo que o resultado deve ser absolutamente respeitado.

Verdade seja dita que logrou a vitória com uma campanha eticamente reprovável, que fez uso do medo -- como quando dizia que a independência do Banco Central era equivalente a colocar banqueiros a decidir preço e salário! -- e que insiste em difundir a cretinice de que ricos, bem-sucedidos, e quem "a direita" do partido estiver, não podem genuinamente desejar a melhoria da renda e da educação das pessoas mais pobres. Mas há quem diga que não há santos e que a "politics of fear" dificilmente vai deixar de ser usada pelos incumbentes, seja de que partido for.

O mais importante aqui é lembrar que essas polarizações são naturais e podem até ser vistas como sinais de maturidade da nossa jovem democracia. Os mapas eleitorais abaixo são ilustrativos desse ponto -- todos mostram níveis razoáveis de polarização entre dois grupos políticos em eleições recentes em países com uma insuspeita tradição democrática (Reino Unido, EUA, Canadá, Itália e França). "Lets embrace" nossa polarização (também) como algo saudável.


Eleições Gerais no Reino Unido 2010

Eleições Presidencias nos EUA/2012

Eleições Gerais no Canadá 2011

Eleições Regionais na Itália 2010


Eleições Presidenciais - 1ºTurno - na França 2012


5. Os eleitores do PT e do PSDB são diferentes?
Dia desses em uma aula de "teoria dos jogos", um aluno me perguntou porque o equilíbrio de Nash não necessariamente envolvia as pessoas jogando as estratégias que maximizam o payoff global delas. Eu disse: "pra que isso fosse o caso (no jogo particular que olhávamos), teríamos que relaxar uma hipótese central para toda a disciplina de economia, e uma que não sei se nos levaria muito longe: a hipótese de que as pessoas que habitam nossos modelos são self-interested". 

Pois bem. Essa história deve parecer boba e auto-evidente para economistas mas ilustra um aspecto (unificador) que se esconde por trás das dezenas de justificativas que foram e serão utilizadas para votar em um candidato ou outro, qual seja: o de que votamos governados pelo interesse próprio (e não há nada errado com isso!). 

Senão vejamos: é ideologia socialistóide ou auto-interesse que faz o estudante universitário, recebedor líquido de transferências (não tem renda própria, logo não paga imposto do próprio bolso) preferir plataformas políticas que advogam mais governo? É desinformação ou auto-interesse que faz o sujeito classe média baixa, do Nordeste ou donde for, que tem (ela, ou seus filhos, ou seus familiares) se beneficiado de vários programas do governo federal (BF, MCMV, FIES, Pronatec, Minha Casa Melhor) preferir a continuidade do governo que massificou esses programas? É ideologia liberalóide ou auto-interesse que faz com que o profissional graduado -- economista, advogado, engenheiro, médico etc, no topo da pirâmide distributiva --, que vê quase metade de sua renda evaporar na forma de tributos com pífio retorno, preferir um governo mais "business-friendly" e com uma mão tributária mais leve? 

A desgraça do analfabetismo econômico é acreditar que há uma inconsistência intrínseca de longo prazo entre as aspirações desses grupos, é deixar que esses discursos ideológicos divisionistas e arcaicos impeçam de enxergar o que o Reverendo William Boetcker disse no seu famoso décalogo: "Você não pode elevar o empregado rebaixando o empregador. Você não pode ajudar o pobre destruindo o rico".